Notícias - Mármore de Estremoz dá corpo à História da Polónia no coração de Varsóvia

27/08/26

Mármore de Estremoz dá corpo à História da Polónia no coração de Varsóvia

A nova sede do Museu de História da Polónia transformou a Estremoz Ruivina numa matéria capaz de contar histórias. Concebida pela WXCA como um "monólito do tempo congelado”, a fachada exigiu seleção rigorosa dos blocos, cortes sequenciais, diferentes acabamentos e um acompanhamento permanente da produção junto da pedreira. A pedra não foi escolhida para revestir o edifício. Foi escolhida para lhe dar significado.

 

Foi esta uma das ideias principais que perpassou a apresentação de Pawel Grodzicki, arquiteto do gabinete polaco WXCA, na 4.ª Conferência Internacional "Portuguese Stone – The Natural Path”, promovida pela ANIET e co financiado por COMPETE 2030, Portugal 2030 e União Europeia. No Museu de História da Polónia, inaugurado em Varsóvia em 2023, o mármore português Estremoz Ruivina tornou-se simultaneamente matéria de construção, elemento plástico e suporte de uma narrativa sobre a passagem do tempo.

 

"A pedra e a sua expressão, a sua natureza, foram muito importantes para a concretização do nosso conceito”, sublinhou Grodzicki logo no início da apresentação. E o resultado é um edifício monumental no qual a pedra domina a perceção exterior, prolonga-se para o interior e é trabalhada de forma a fazer de cada camada, veio, diferença cromática ou relevo uma parte da história que o museu pretende contar.

 

Cidadela regressa à cidade

O contexto ajuda a compreender a força simbólica do projeto. O Museu de História da Polónia ergue-se na Cidadela de Varsóvia, uma fortificação construída no século XIX durante o domínio russo sobre a Polónia e que, durante cerca de dois séculos, permaneceu em grande medida isolada da cidade pela sua utilização militar.

 

Situada próximo da Cidade Velha e da histórica Rota Real, a Cidadela transformara-se, nas palavras de Grodzicki, numa espécie de "ilha” dentro de Varsóvia. A sua abertura recente ao público constituiu, por isso, uma dimensão fundamental da intervenção, restituindo aos habitantes uma extensa área até então encerrada e criando um novo polo cultural.

 

A WXCA conhece particularmente bem este território. O gabinete venceu, em 2009, o concurso para o Museu de História da Polónia e é, também, responsável pelo vizinho Museu do Exército Polaco. Mas, enquanto que neste último o material dominante é o betão, no Museu de História a escolha recaiu sobre a pedra natural – e, em concreto, sobre um mármore português.

 

"Podemos ver o tempo?”

Foi a partir de uma pergunta aparentemente simples que os arquitetos começaram a construir a linguagem do edifício. "Podemos ver o tempo? Porque a história é a passagem do tempo”, recordou Pawel Grodzicki.

 

A resposta surgiu precisamente na matéria geológica. Se o tempo é invisível, as suas marcas não o são. As formações sedimentares registam milhões de anos em sucessivas camadas de material; as escavações arqueológicas revelam, igualmente em estratos, objetos e vestígios acumulados ao longo de séculos.

 

Essa sobreposição transformou-se num dos princípios fundamentais da fachada. O grande volume de pedra foi pensado como uma espécie de corte geológico ou arqueológico em que diferentes camadas se vão acumulando e revelando vestígios do passado. A apresentação utilizada por Grodzicki é explícita nessa associação: "geological stratification”, "archaeological stratification”, "cultural sediments”, "layers and artifacts”. A pedra surge, assim, como um depósito do tempo. E é sobre essa superfície estratificada que aparecem os "artefactos”.

 

Alguns inspiram-se no conceito histórico de spolia – elementos de antigas construções reutilizados noutras edificações –, enquanto outros recuperam motivos e formas provenientes de diferentes períodos da arquitetura e da cultura polacas. "É apenas uma citação. É como se fosse uma amostragem, como na música rap. Pega-se em algumas peças e monta-se algo novo”, explicou o arquiteto.

 

O edifício não reproduz literalmente esses elementos históricos. Transforma-os. Um motivo figurativo pode converter-se num padrão geométrico; uma referência a uma construção antiga pode reaparecer reinterpretada num relevo contemporâneo.

 

Irregularidade da pedra tornou-se vantagem

Se há uma passagem da apresentação particularmente significativa para a indústria da pedra natural, é aquela em que Grodzicki descreve a procura do material. Num setor em que a uniformidade cromática e visual é frequentemente valorizada, os arquitetos da WXCA procuravam exatamente o contrário. "Quando estávamos a viajar, vocês falavam muito sobre a uniformidade na pedra. Nós procurávamos precisamente o oposto, o extremo oposto”, contou.

 

A explicação estava no conceito das "faces de pedra”. O objetivo era que cada placa pudesse ser entendida quase como um indivíduo inserido numa composição coletiva. E, para isso, os veios, tonalidades e desenhos naturais do mármore eram essenciais. "Cada peça de pedra é única. Não existem duas peças iguais”, afirmou Grodzicki.

 

A variabilidade natural do material deixou, portanto, de ser algo a esconder ou corrigir. Passou a ser precisamente aquilo que os arquitetos queriam mostrar. As peças podiam surgir isoladas, quase caóticas, ou ser combinadas de forma rigorosamente controlada para produzir padrões, simetrias e composições que Grodzicki comparou às páginas abertas de um livro.

 

Da aparente desordem à composição extremamente organizada, a fachada explora deliberadamente diferentes possibilidades expressivas do mesmo material.

 

Da pedreira à fachada, o lugar de cada peça

Transformar esse conceito arquitetónico numa fachada construída esteve, porém, longe de ser simples. Para produzir determinadas continuidades de veio e certos efeitos de espelho ou repetição, não bastava cortar placas aleatoriamente. Era necessário retirar material de lajes consecutivas dentro do mesmo bloco, preservando a sequência existente no interior da pedra. "Isto era muito incomum para os fabricantes. Tivemos de discutir bastante e, depois, conciliar tudo”, reconheceu Grodzicki.

 

O controlo estendeu-se por todo o processo. Durante o desenvolvimento do projeto e posteriormente durante a obra, houve acompanhamento permanente na região da pedreira para selecionar blocos e controlar a produção. Os cortes e os relevos ornamentais eram executados antes do transporte das peças para Varsóvia.

A fachada organiza-se em seis grandes camadas, cada uma subdividida em diferentes níveis e sujeita a tratamentos específicos. As placas também não possuem dimensões uniformes: algumas aproximam-se dos três metros.

 

Mais importante ainda era assegurar a continuidade visual do material. Quando terminava um bloco e começava outro, a transição deveria tornar-se praticamente impercetível. "O encaixe foi muito importante”, sintetizou o arquiteto.

 

O mesmo rigor foi aplicado aos cantos, obrigando a controlar a passagem da textura e dos veios de uma fachada para outra – uma operação particularmente complexa num processo construtivo habitualmente desenvolvido a partir de desenhos bidimensionais. Aqui, a pedra tinha de ser pensada tridimensionalmente.

 

Seis níveis fazem a pedra mudar

Havia ainda outra exigência: o edifício deveria parecer progressivamente mais claro à medida que ganha altura. Na base, o mármore apresenta maior intensidade cromática e padrões mais evidentes. Nos níveis superiores, vai adquirindo uma expressão visualmente mais leve.

 

O efeito foi obtido através da combinação de materiais provenientes de diferentes zonas de extração e, sobretudo, através dos acabamentos aplicados: superfícies escovadas, jateadas, serradas e outras soluções intermédias foram articuladas ao longo das seis camadas principais da fachada.

 

Para verificar o resultado antes da execução definitiva, a equipa chegou a instalar no edifício uma amostra à escala real com cerca de 25 metros de altura. Era necessário perceber a pedra como ela seria realmente vista – à escala do museu, sujeita à luz de Varsóvia e integrada numa fachada monumental.

 

Camadas, artefactos, "faces” individuais e formações coletivas acabaram assim fundidos numa única composição. Foi nesse momento que surgiu a expressão escolhida pela WXCA para descrever o edifício: "monólito do tempo congelado”.

 

Mármore português no inverno de Varsóvia

A escolha do mármore para uma fachada desta dimensão colocou igualmente questões técnicas relevantes. "É muito difícil utilizar mármore na fachada no nosso clima, porque temos muitas variações de temperatura, tais como congelação e descongelação”, explicou Grodzicki.

 

A resposta obrigou a estudar cuidadosamente o comportamento da pedra e as soluções construtivas. Segundo o arquiteto, as peças planas utilizadas na fachada têm tipicamente cerca de cinco centímetros de espessura, enquanto os elementos ornamentais exigiram espessura suplementar para permitir a execução dos relevos.

 

A profundidade das esculturas é, apesar da força do seu efeito visual, relativamente pequena. Em muitos casos, apenas alguns centímetros bastam para que a incidência da luz transforme completamente a leitura da superfície. E foi precisamente a luz outro dos materiais invisíveis do projeto.

 

Ao longo do dia, sombras e reflexos fazem aparecer e desaparecer os relevos. Ao meio-dia, contou Grodzicki, o sol percorre a fachada e revela formas que permanecem quase ocultas noutras horas – aquilo a que a equipa passou informalmente a chamar o seu "momento Indiana Jones”.

 

"Arranha-céus deitado” escavado por dentro

A metáfora geológica não termina na fachada. Com quase 200 metros de extensão, o Museu de História da Polónia é, na descrição de Grodzicki, quase "um arranha-céus deitado”. Mas, em vez de organizar convencionalmente uma sucessão de espaços a partir da entrada principal, a WXCA imaginou o edifício como um bloco maciço progressivamente escavado.

 

O piso das exposições permanentes é deliberadamente introvertido. Em contraste, o rés-do-chão assume um carácter aberto e extrovertido, permitindo que o público atravesse e explore livremente o edifício. É aí que se encontram os espaços educativos, as exposições temporárias, o auditório, o restaurante e outras funções públicas, enquanto a exposição principal ocupa o nível superior. A pedra acompanha essa ideia até ao interior. "Não é de admirar que o interior do edifício tenha sido feito com a mesma pedra”, salientou Grodzicki.

 

As mesmas camadas e subcamadas da fachada prolongam-se, portanto, pelos espaços interiores, mantendo a continuidade material da narrativa. Apenas alguns elementos metálicos em cobre, nomeadamente junto da escadaria principal de acesso à exposição, interrompem deliberadamente essa dominância pétrea.

 

Quando vender pedra é participar na arquitetura

Para o setor português da pedra natural, a apresentação de Pawel Grodzicki deixou uma mensagem particularmente relevante. No Museu de História da Polónia, o valor do material português não resultou da tentativa de tornar todas as placas iguais. Resultou precisamente da capacidade de explorar aquilo que cada bloco tinha de diferente.

 

A Estremoz Ruivina não chegou a Varsóvia como uma matéria neutra destinada a preencher metros quadrados de fachada. O desenho natural do mármore condicionou a composição arquitetónica; a sequência dos cortes determinou padrões; a escolha dos blocos interferiu diretamente no resultado final; os acabamentos alteraram a perceção cromática do edifício; e o conhecimento da extração e da transformação foi necessário para converter uma ideia conceptual numa solução construída. Foi, por isso, um projeto em que arquitetura e indústria tiveram inevitavelmente de trabalhar em conjunto.

 

O próprio processo descrito por Grodzicki – com seleção dos blocos, acompanhamento permanente da produção, cortes sequenciais, fabricação dos relevos e controlo da posição das peças – mostra como projetos arquitetónicos de elevada exigência podem transformar a relação entre o projetista e a indústria da pedra.

 

No final da apresentação, enquanto mostrava reflexos, relevos e diferentes incidências de luz sobre a fachada, o arquiteto regressou à pergunta que atravessara toda a intervenção. A pedra conseguia, afinal, contar histórias. "Sentem-se as histórias e as histórias individuais contadas pela pedra, peças diferentes, formas diferentes”, concluiu. Em Varsóvia, essas peças são de mármore português.